domingo, 13 de junho de 2010

Querido diário....



Querido diário,


Será que é preciso contar?
Talvez para tirar o peso que se arrasta por tantos anos ou simplesmente pra falar.
Vou te contar sobre rejeição e todos os outros sentimentos que vêm à tona com ela.
Fui rejeitada pela primeira vez ainda no ventre da minha mãe, sabia? É, isso mesmo. Eu ainda era apenas um ser em formação quando meu pai me rejeitou, ao dizer em claras palavras pra minha mãe: "Eu quero que seja um menino." E eu lá de dentro, me encolhi com medo, pois eu já sabia que era uma menina, mas quando ouvi aquela voz tão alta e forte dizendo o contrário, me dei conta de que se eu realmente chegasse no mundo, as coisas não seriam nada fáceis.
E então os meses foram passando, a barriga da mamãe crescendo e eu sabia que meu tempo estava próximo, e como enfrentar esse mundo cheio de tantas coisas, e ainda mais um problema logo dentro do que seria o meu lar?
Só que mamãe não percebeu que meu tempo tinha chegado e já estava até passando, quando um belo dia, ela disse ao meu pai que tinha algo errado, e lá fomos nós para o hospital.

Chegando lá, o médico olhou assustado pra ela e mandou que a internasse logo, pois eu já estava sem o líquido amniótico que tanto me protegia. No fundo eu sabia que já era tempo de chegar, mas talvez por medo meu e da minha mãe, eu me atrasei.

Cheguei ao mundo sem grandes problemas, foi um parto fácil, apesar do susto do doutor. Ele mandou fazer exames em mim e pediu para que minha mãe prestasse atenção, pois eu poderia trazer seqüelas graves, inclusive cerebrais. E meu pai quando foi ao hospital para ter notícias, minha mãe simplesmente mentiu, dizendo que ainda não tinha tido o bebê, que estava aguardando. Ele saiu do quarto e quando chega ao corredor, a enfermeira com a sua boca grande diz pra ele que eu já tinha chegado, aí ele voltou ao quarto e perguntou novamente pra minha mãe, que então disse a verdade, pois pensava em fugir comigo.

Os anos passaram e quando eu ainda era criança eu sofri um acidente, na verdade um trauma, que me deixou sem andar por mais de um ano. Depois desse tempo eu voltei a andar e fiz um tratamento ortopédico. Tudo ia indo mais ou menos bem. E por que?
Porque eu não podia fazer várias atividades que as outras crianças faziam devido às minhas botas ortopédicas.

Pois então Querido diário, quando fiz 15 anos veio minha segunda rejeição. Como sempre, toda e todo adolescente se apaixona e acha que a menina ou o menino é o amor pra toda a vida, e comigo não foi diferente. Mas para a minha surpresa, o menino me disse um não enorme e ainda disse que gostava era da minha amiga.

A vida foi seguindo e no ano seguinte aos 16 anos sofri mais uma rejeição, só que dessa vez eu ainda mantive uma obsessão por esse rapaz, que mesmo não me aceitando em um relacionamento homem/mulher, me manteve como amiga e confidente. Fiquei nessa condição até os 28 anos, achando que era normal, e que dessa forma eu o tinha por perto. Bobagens.....

É Diário, a vida não foi fácil nesses períodos. Aliás, nunca foi, em nenhum outro também, pois nem vou enumerar todas as outras rejeições que sofri. Mas parei pra pensar e me veio esse começo que foi tão difícil e que delineou toda a minha história até aqui.

Talvez seja por isso que toda vez que alguém me conhece ou vê uma foto minha me diz que sou uma linda alma com olhar triste. Deve ser essa história que já vem de longe, não é?

Ah, Diário, são tantas coisas, tantas tristezas, tantas angústias e você bem sabe e já me acompanhou nas desventuras e tentativas de deixar esse mundo. Mas ainda bem ou não, eu nunca as concretizei, e só por isso hoje estou aqui escrevendo.

Bem, hoje vou terminando por aqui....

Outro dia volto pra falar mais com você............................

Fatos de uma vida real
Por Tempestade

8 comentários:

orvalho do ceu disse...

Querido diário
Vc deve já saber que é muito amado por Deus... pois Ele não permitiu que vc perdesse sua vida até hoje... mesmo com tantas tribulações...
Continue a escrever sua história e conte com minha atenção para vc e ela.
Bjs e ótima semana para quem está por trás a escrever!

Luiz disse...

Começo duro ... mas para saber como vai ser daqui para frente, a coisa mais importante é que você se aceite.
Também tive meus probleminhas com rejeição, todos razoavelmente superados a essa altura.
Principalmente depois que passei a verdadeiramente gostar de mim.
Beijos serenos.

Gisa disse...

Puxa, tem muito tempo que não passo por aqui, a foto é maravilhosa.

Lembre-se:
"As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do caráter."
Carlos Drummond de Andrade

Grande abraço

EU SOU NEGUINHA disse...

Menina..tanto sofremos com as rejeições...aprendi a tirar fruto delas...onde aprendi a crescer através destas experiências...com elas,aprendi a entender o outro e como vejo isso em mim..e quer saber? driblo e bola pra frente,porque na verdade...quero é ser feliz...
Beijos menina dos ventos e tempestades

Nany C. disse...

Vou deixar um simples beijo nesse coração!

E a certeza de que ele vai chegar ao seu destino...

Miga, saudade...
Fica bem! Esteja bem!!

Sandra disse...

Minha amiga querida...

Pois é... assim como voce eu como primogênita ouvi de meu pai que preferia um homem, a rejeição não foi apenas na constatação de que eu era menina, mas no decorrer de toda minha existência com ele, pois sempre houve diferenças gritantes entre eu e meus irmãos homens. Mas quer saber... quem perdeu foi ele, que não observou quem o cercava...

Também tive minha desilusão amorosa quando era uma adolescente, e também imaginei que se ficasse por perto seria menos doloroso, até porque acreditei que nunca mais iria amar como amava... bobagem...

é amiga...

desilusões temos tantas... rejeições então... affe... já perdi a conta, mas o que diferencia, é não perder o pique, porque se parar ara analisar... em contrapartida, a quantidade de coisas boas que nos acontecem... são enormes...
é que as ruins, sempre possuem cores mais fortes, mas não que as boas não sejam capazes de colorir...

Ênfase nelas!!!!

adoro vc!!

beijos

Deia disse...

Tempestade, cada vez que vamos nos dando conta do que realmente nos atormenta, mais próximos estamos de nos libertar disso. Seu diário está percebendo o que sua autora já está também se dando conta: é preciso trocar a casca, machucada, mal tratada, dilacerada, por uma nova, de seda, mais leve e mais condizente com seu momento atual.
Não percebeu? Tempestade, de lagarta você se tornou borboleta! Sobrevoe um lindo lago e veja o seu reflexo - o seu reflexo REAL, e não a ideia antiga sobre você.
Vá aos pouco, mas vá logo! Tem uma vida inteira ansiosa por lhe receber, de braços abertos. Só falta você aceitar!
Um beijo muito querido,
Deia

* Patty Meirelles * disse...

"Que a gente siga cultivando um pouco da pureza, inocência e confiança que a gente tinha aos 8 anos, coisas que acabam se perdendo com a brutalidade do cotidiano. Se eu não sinto saudade da infância, é porque essa inocência de certa forma ainda preservo, porque sem ela ficamos muito ásperos em relação a tudo.
Então, sigamos inocentes, mas sem deixar de curtir a magnitude de ser gente grande."

[ Martha Medeiros ]

Passando para desejar-te uma semana abençoada.

Bjs com carinho;

Patty