Um pedaço de papel...



Ela o amou no primeiro instante que o viu. Aqueles cabelos pretos tão bem penteados, os olhos castanhos tão vivos e intensos que a olhavam tão ternamente. Naquele momento, ela era apenas uma garota, ainda deslumbrada com o amor, com a conquista. E aquele dia foi inesquecível.Um pedaço de papel, um telefone e a promessa de ouvir novamente aquela voz no fim de semana seguinte.
Ele trabalhava muito, tinha plantões, viajava para as fronteiras tão extensas do Brasil, ficava dias e dias sem comunicação, lá no meio da Floresta Amazônica. Mas quando voltava à cidade, o telefonema era certo, as palavras escolhidas, o sorriso franco e o coração alegre. Ela esperava ansiosamente por esse momento. Até que um dia ele mandou a primeira de uma série de cartas lá da fronteira, como nos filmes de guerra, em que a mocinha aguarda ansiosamente por notícias. Era um época complexa, o Brasil vigiando suas fronteiras para que colombianos e bolivianos não invadissem e iniciassem um tráfico de armas, drogas e toda sorte de coisas ilegais. Uma época romanceada em que as Forças Armadas Brasileiras estavam a serviço da Nação. E a primeira carta que ele enviou não chegou às suas mãos. Meses se passaram sem notícias.
Um dia se reencontraram, ele passou por ela e não a olhou, sem entender ela o procurou e ele perguntou: "Não leste minhas cartas quando eu estava na fronteira?", "Nunca me respondeu". E ela respondeu: "Não recebi nada". Um silêncio se instalou entre os dois, ele simplesmente se foi e a deixou ali, estática sem saber o que fazer e pensar.
Até que em uma manhã de sol, seus pais entregaram as cartas à ela, mas já era tarde...
Ávida por saber o que ali estava escrito, correu para o quarto e sentada na cama abriu o envelope e rapidamente lia cada linha, e na mesma velocidade, lágrimas começaram a pender dos seus olhos. Olhos castanhos como os dele, porém, os dela já não estavam mais vivos e ternos. Nas cartas ele dizia ter saudades, dizia que ela era uma moça especial e que ao voltar da fronteira conversariam. Com o coração apertado, ela foi até seus pais e perguntou o motivo de terem escondido aquelas cartas. Houve um silêncio e nenhuma resposta.
Dias depois, ela teve uma resposta. Seus pais não queriam que ela se envolvesse com aquele rapaz.
Os anos passaram sem que ambos se vissem, que seus olhares se cruzassem...
Até se reencontrarem tempos depois, após longos anos, e se tornarem "amigos". Cada um já tinha vivido outras histórias, altos e baixos, alegrias e tristezas. Tornaram-se cúmplices nas dores de amor, de família, na conquista de objetivos e tantas outras situações partilhadas.
Muitos anos se passaram, precisamente, 18 anos, e eles continuam juntos nessa amizade e cumplicidade que jamais esperavam.
Mas eles sempre se lembram daquele dia em que seus olhares se cruzaram e aquele pedaço de papel com um telefone anotado foi o início de tudo...


Comentários

A.Tapadinhas disse…
A verdadeira amizade não tem o conceito de espaço e de tempo, do comum dos mortais.

Einstein já o sabia!

Piódão é um sítio maravilhoso para férias, para viver, para pintar...

...eu voltarei a Piódão e a esta tempestade perfeita...

Beijo.
António
Elcio Tuiribepi disse…
Caramba, que estória bonita, ou é História bonita? Seja qual for a
e(h)stória, acho muito bacana esta coisa da cumplicidade, do querer bem, mas lendo o post anterior preciso comentar também...rsrs
Acho que liberdade mesmo, poucos tem, até porque a nossa termina quando começa a dos outros, portanto sempre haverão limites...até porque como voc~e mesmo disse, envolve ações pertinentes ao ser humano...Mas porque o tertulia virtual irá fechar, vi no blog da Mari falando tbm sobre isso...
Um abraço na alma...boa quinta para você...
D.Ramírez disse…
Quantas milhões de coisas que uma caneta escreve desenha...
Me veio na imagem uma caneta contando aquilo q ja viu.rs
Belo texto esse. muito bom;)

Besos
Ernani Netto disse…
Grandes coisas começam com pequenos momentos, em pequenos gestos!

E como pai e mãe podem atrapalhar um filho de ser feliz?

Bjaum
Katy disse…
Hmm...mas essa essa história ainda vai ter um 'final feliz', ah se vai!!!
Ou não?
Bjs.
Luis Bento disse…
Que bela viagem pela memória!
Nany C. disse…
Se era pra chorar, conseguiu minhas lágrimas...


Beijos no coração...
Judith disse…
As melhores e mais lindas histórias de amor são complicadas e cheias de desencontros. Essa certamente ainda não acabou.
Beijinhos e bom fim de semana!
A Lobba! disse…
Por isso que tem tanto filho matanto pais...vixi...a bichinha devia ser adotiva...tadinha...
Chorei...
Lambidas da lobba!
Helinha disse…
Hummm...

A história é linda e sei que a amizade é uma espécie linda de amor...

Mas sempre me doem as histórias de amor que não são o que poderiam ter sido... sempre me doem, sim...

Beijo grande!!
myra disse…
isto mesmo, pode començar com "qualquer "coisa
lindoooooooooooo ....
beijos

sabe voltei do hospital faz tres dias com um pacemaker, doi,doeu muito, estou cansda mas vou ficar otima, e quem sabe ate escrever melhor....:)

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