terça-feira, 21 de abril de 2009

Tudo que se chama amor...



Tudo que se chama amor. – Cupidez, amor – ah! Como essas duas palavras têm sons diferentes em nossos corações! Talvez expressem, entretanto, o mesmo instinto batizado duas vezes: a primeira pejorativamente, do ponto de vista daqueles que já possuem que já têm um instinto de posse levemente formado e que temem, portanto pelos seus “bens”; a segunda elogiosamente, do ponto de vista dos insatisfeitos e dos ávidos que encaram esse instinto como “bom”. Nosso “amor ao próximo” não é na verdade um desejo imperioso de uma nova posse? E não acontece o mesmo relativamente ao amor à ciência e à verdade? E, mais, geralmente, a todo desejo de novidade? Deixamos pouco a pouco o antigo, do que possuímos seguramente, temos necessidade de estender ainda nossas mãos. A mais bela paisagem, depois que vivemos em face dela durante três meses não nos agrada mais, qualquer margem distante nos atrai com maior intensidade: uma possessão geralmente diminui com o uso. O prazer que tiramos de nós mesmos procura se manter transformando sempre qualquer coisa nova em nós mesmos e precisamente a isto chama-se possuir. Cansar-se de uma possessão é cansar-se de si mesmo. (O sofrimento pode provir do excesso; o nome lisonjeiro de “amor”.) Quando vemos alguém sofrendo aproveitamo-nos com agrado essa ocasião que se apresenta de apoderarmos dele; assim se faz o homem caridoso, o indivíduo complacente, que também chama de “amor” esse desejo de uma nova posse que despertou em sua alma e tem prazer nisso como diante do apelo de nova conquista. Mas no amor de sexo para sexo que se revela mais nitidamente um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja um poder absoluto tanto sobre seu corpo quanto sobre sua alma, quer ser amado unicamente, instalar-se e reinar em outra alma como o mais alto e desejável. Se considerarmos que isso significa excluir o mundo inteiro do gozo de um bem e de uma felicidade preciosas; se pensarmos que aquele que ama deseja empobrecer e privar os demais concorrentes e tornar-se o dragão de seu tesouro como o mais indiscreto “conquistador”, o mais egoísta dos exploradores, se considerarmos que todo o resto do mundo lhe parece indiferente, desbotado, sem valor e que está pronto para fazer qualquer sacrifício, perturbar qualquer ordem estabelecida, relegar a segundo plano tudo quanto lhe interessa, espanta-nos que essa cupidez bárbara, essa furibunda injustiça do amor sexual, tenha sido glorificada a tal ponto, deificada em todos os períodos da história, pior, que se tenha tirado deste amor a idéia de amor como o oposto do egoísmo, enquanto talvez seja sua expressão mais espontânea. O uso, aqui, deve ter sido criado pro aqueles que ainda não possuíam e que desejavam possuir; talvez sempre tenham sido em número excessivo. Os que possuíram muito e conheceram a saciedade, deixaram vez por outra escapar uma palavra falando de “demônio furioso”, como Sófocles, o mais amável e mais amado dos atenienses; mas Eros sempre se ri de tais blasfemos; são seus grandes favoritos. Existe realmente aqui e além da terra uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo experimentado por dois seres dá lugar a um novo desejo, a uma nova cobiça, a uma sede comum e superior, de um ideal que ultrapassa ambos: mas quem conhece esse amor? Quem o viveu? Seu nome verdadeiro é amizade.


A gaia ciência
Friedrich Nietzsche
Tradução de Márcio Pugliesi

Tempestade copiou esse texto
Trilha do momento
Pensativa acerca das relações humanas em todas as suas instâncias

12 comentários:

L. disse...

Odeio tanto Nietzsche...

Marco Sistinne disse...

Oi Tempestade, não sei se você irá lembrar de mim é o Marcos Miorinni agora Marco Sistinne, ex-janelas e travessias, ex-PorentreLetras, ex-Oficina de Fragmentos ... ufa. Estou com um novo blog o Bula Literal passe por lá combinado ... fico te esperando.

bjs
Marco Miorinni
agora Marco Sistinne
ou simplesmente Marco

Roberta.rj disse...

Que texto lindo Letícia!!! Muito significativo pra mim...
Adorei!!!
Bjus e bom feriado!!!

Avassaladora disse...

Oi, menina!
Que texto bárbaro!
A possessão do amor é esmagadora...
Não sei se a amizade é menos....
Tem amigos possessivos tb...

Mas que tem grandes verdades aqui, lá isso tem!


Beijos!

Elcio Tuiribepi disse...

OLá amiga, as vezes até numa amizade encontramos com esse sentimento de posse, é humano, mas não faz bem para ninguém, acaba com qualquer relacionamento...
Enfim...o tal do equilibrio se faz necessário....complicado né...rsrs
Um abraço na alma...bom feriado

Ali disse...

Uau...
falar de amor é pra quem pode.
que texto lindo.
tocante.

e realmente signifivativo.
adorei.

Besos da Lii;

Ernani Netto disse...

Eu acredito que o verdadeiro amor, aquele em que há realmente cumplicidade, é quando amamos mas acima de tudo temos amizade.

A relação entre duas pessoas pode ser melhor quando se complementa o sentimento (amor) com a vontade de estar junto (amizade).

Muito bacana seus textos, sempre muito pertinentes!

Bjaum

Crisenta disse...

Belo texto, essa parte em especial é muito verdadeira 'tirado deste amor a idéia de amor como o oposto do egoísmo, enquanto talvez seja sua expressão mais espontânea'... Concordo plenamente um sempre vai estar ligado ao outro.
Beijos e bom feriado

Flavio Ferrari disse...

O amor, de verdade, é realmente o oposto do egoísmo.
Paixão, tesão, afeição ... outro departamento.

Hod disse...

Olá Letícia!!

Provocante esse texto!!!

Quase 8 bilhões de cérebros habitam o planeta. Isto é fato!!

Cada um é singular na forma de exercer sua capacidade de amar!!

Veja esta!!

http://www.youtube.com/watch?v=zIP9UHtvk1g

Aloha!!

Hod

C. disse...

Prefiro amar sem possessão, porque amar inclui principalmente ser/deixar livre.

Muito bom esse texto Le!

rouxinol de Bernardim disse...

Texto bem urdido... é mesmo assim!