Saudades dele...


Não, ele não era um pai que abraçava seus filhos. Tinha o olhar sério e às vezes de repreensão, mas era para o nosso bem, mostrava o cuidado e preocupação que tinha com os filhos.Sua gargalhada era ouvida e ecoava por toda a casa, e olha, que muitas vezes ele estava na cozinha ao lado da minha mãe. Tinha um sofá preferido na sala, o lugar onde sentava para assistir desenhos animados no sábado e domingo pela manhã. Mas quando menos se esperava ele já estava estirado no sofá e dormindo, pé ante pé íamos a pedido da mamãe desligar a tv, e quando pegávamos o controle remoto e apertavámos o botão de desligar, ele tossia e dizia: "Pode deixar ligada estou assistindo." A gente dava um sorriso e ligava novamente, saíamos e olhando um para o outro falava:"Ah, estava assistindo."
A marca registrada dele era ao fim do dia quando chegava do trabalho, ouvíamos o barulho do portão da garagem se abrir com tal força e o motor do carro, logo levantávamos do sofá "dele" e gritava: "Mãe, o papai chegou." Foram anos e anos assim, com sol, chuva, férias escolares, ano entrando e saindo e conhecíamos cada rotina dele, um passo em direção a um dos filhos, um olhar de lado ou mesmo quando íamos ao encontro dele pedir permissão para fazer algo ou mesmo pra sair de casa e ele sempre dava a mesma resposta "Pergunta pra sua mãe." E naquele ping-pong às vezes desistíamos de ir em frente, mas era engraçado. Passamos então a pedir diretamente à mamãe. Fazendo um atalho.
Mas infelizmente um dia há nove anos atrás essa rotina foi interrompida, em um domingo pela manhã não o vimos cedinho em frente a tv para assistir aos desenhos, ele não tinha se levantado da cama. Coisa que nunca mais o fez e desde então não escuto o portão da garagem abrir, nem sua gargalhada pela casa, não preciso desligar a tv e nem sair correndo do sofá que ele sentava...
Hoje quando assisto aos mesmos desenhos lembro dele,
hoje só uso o portal social da casa,
hoje não pergunto mais se posso sair,
hoje não espero que o relógio marque 18 horas para que ele chegue.
Saudades dele... do meu PAI.
Letícia Alves
Trilha do momento
Lembranças vivas do meu pai

Comentários

Roberta.rj disse…
Que lindo Letícia!!! Nem sei o que escrever, pois estou emocionada demais pra pensar em palavras...
Um beijo!!!
Tenha um lindo domingo e uma semana maravilhosa!!!
Muita LUZ e PAZ semopre!!!
Cadinho RoCo disse…
É preciso aprender a conviver com a saudade. Receba minha solidariedade.
Cadinho RoCo
Ernani Netto disse…
Muito lindo isso!

Eu sinto essa falta do meu avô!

Bjaum
o casalqseama* disse…
fiquie com um
nó na garganta!


tens a minha admiração!
C. disse…
Adorei o texto, me comoveu.
Precisamos lembrá-los com lembranças boas e esquecer o capítulo final né.

Postagens mais visitadas deste blog

Vencendo etapas...

Cartas de amor

Olhos de Carvão - Afonso Borges