Simples assim...



Era uma menina tímida, mas pensativa e contemplativa, olhava sempre ao seu redor e viajava nos olhares dos outros e no mundo à sua volta.

Sentada no pátio da escolha, observava seus colegas de classe brincando de bola, outros de corda, e também os que apostavam corridas. E ela ali, segurando em suas pequeninas mãos, o relógio de pulso que um colega pedia pra guardar enquanto se matava de correr pela quadra de esportes, os brincos de uma menina que se aventurava na piscina, e à sua volta vários outros objetos que precisavam de "guarda" enquanto seus donos estavam "longe" deles.

O tempo passava e ao final do dia, a professora gritava chamando as crianças dizendo que era hora de se trocarem, arrumarem as mochilas e aguardar a chegada dos pais e/ou responsáveis que iriam buscá-los.

Que bagunça!!! na mesma hora, meninos e meninas se amontoavam à sua volta pedindo com seus braços pequeninos, seus pertences. E ela esticava as mãozinhas entregando a cada um deles seus "bens valiosos", e também apontava onde os outros estavam. Um misto de alegria e tristeza a tomava nesse momento. Era feliz por ser uma peça importante naqueles dias de recreação, afinal, era a "guardiã" daqueles objetos, e ao mesmo tempo triste, pois não podia correr com os coleguinhas ou se aventurar na piscina. O dia chegava ao fim e ela iria pra casa como todas aquelas crianças.

Anos e anos se passaram e em todas as escolas nas quais estudou, novamente era elegida a "guardiã" dos "bens preciosos" de seus colegas de classe.

A infância passou, a adolescência também, e ela não cultivou amizades como outras crianças. Pois, naquela fase de descoberta em que o amiguinho quer ir à sua casa pra conhecer onde você mora, brincar com os seus brinquedos ou comer pipoca, ah, isso foi tirado dela, por seus pais.

Na adolescência pensou que seria diferente, que poderia cultivar novos amigos e ter essa oportunidade de outra fase de descoberta. Mas foi em vão, novamente, isso foi tirada dela, e novamente por seus pais.

A vida adulta chegou e hoje ela é bastante só, não cultivou na infância e nem na adolescência, mas a cada dia é uma nova tentativa de cultivar uma amizade sincera e duradoura até a velhice, por que não?

Ela acredita que sim, que pode ser simples assim...


Ah!!! o motivo para que ela fosse sempre eleita a "guardiã" dos "bens preciosos", é que aquela garotinha tímida e quieta usava botas ortopédicas. Não podia correr, não podia pular corda, e nem se aventurar na piscina....
Mas hoje se aventura pela vida!!!

Letícia Alves
Trilha do momento
Metade
Oswaldo Montenegro

Comentários

o casalqseama* disse…
oi, lê!

que história linda. eu também usei botas... odiava, mas não deixava de correr, nem de me aventuarar como as outras crianças.

meu pai sempre diz que temos que fazer das dificuldades, oportunidades! então, que ela aproveite cada instante em que pode ser amiga e ter um amigo também.


não é simples. porém, possível!
bjão da fê =D


p.s.: vou responder teu e-mail! de antemão: sou uma menina feliz, uma mulher que ama e é amada, uma profissional de comunicação!
Avassaladora disse…
Que triste!
O final faz\ a gente chorar, Leticia!
Mas a vida é assim mesmo!
E não há como fugir...


Beijos e carinhos
Mary Justo disse…
Triste... Muito triste...
Mas sei que os pensamentos dela voaram no lugar de suas pernas!
Beeeeeeeeeeeeeeeijos

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