De Fidel, Bossa Nova e fondue



Recebi da minha amiga Capitu por e-mail, olha que legal.

De Fidel, Bossa Nova e fondue

Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)


Nos anos 60, éramos todos (os já nascidos, claro) mais jovens, mais bonitos e mais cheios de esperanças. E, como numa viagem de Julio Verne, volto a esse tempo. O Papa João XXIII revoluciona a Igreja Católica com o Concílio Vaticano II. Os hippies defendem o amor livre e a não violência. Iuri Gagárin descobre de longe, no céu, que a Terra é azul. Neil Armstrong pisa pela primeira vez numa lua que, de perto, é cinzenta. Fidel Castro mostra que sonhos podem se tornar reais, e sai das selvas para os palácios de Havana. Che Guevara tenta construir outros sonhos, e morre sozinho na selva boliviana. Os Beatles cantam "I want to hold your hand" e mudam toda uma geração. No cinema é tempo de Blow up (com Jane Birkin), La Dolce Vita (Marcello Mastroianni), 007 contra o Satânico Dr. No (Sean Connery), Bonequinha de Luxo (Audrey Hepburn), A Primeira Noite de um Homem (Dustin Hoffman; ao som de Mrs. Robinson, entre outros sucessos de Simon&Garfunkel), Easy Rider (Peter Fonda e Jack Nicholson) e O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte) - que recebe a Palma de Ouro, no Festival de Cannes. Jucelino Kubitschek inaugura Brasília; os militares tomam o poder; o embaixador americano Charles Elbrick é seqüestrado e depois trocado por quinze prisioneiros políticos. No futebol somos bicampeões, pelas pernas tortas de Garrincha. Tem início a Bossa Nova, a Jovem Guarda, a Tropicália. Roberto Carlos canta "quero que vá tudo pro inferno"; Chico Buarque, "A Banda"; Elis Regina, "Arrastão"; Geraldo Vandré, "Disparada". Em Pernambuco, o governador Miguel Arraes é deposto. Operários são mortos. Estudantes, caçados. Dom Hélder, o pastor da paz, é o novo arcebispo de Olinda e Recife. E a vida segue seu curso previsível. Os jovens tomam Fratelli Vita, ponche e sorvete Tatá; vão ao "Encontro de Brotos", no Internacional; e participam de Gincanas. Na televisão, "Noite de Black Tie" (aos sábados) e "Você Faz o Show" (aos domingos). Mas bom mesmo era sair do Recife, finalzinho de tarde, subir a Serra das Russas e ir até Gravatá, para a recém inaugurada Taverna Suíça, de Jose Luiz Truan. Lá, a grande novidade era fondue de queijo e de carne - com salada de alface e tomate, picles, chips de batata e molhos de beterraba, alho, rose, tártaro e verde. A receita chegou no Brasil em meados do século passado, trazida por imigrantes franceses e alemães. Primeiro, no Sul, de clima mais frio, próprio para esse prato; depois também no Nordeste, onde, apesar do calor dos trópicos, conquistou todos os gostos. Fondue, só para lembrar, é particípio passado do verbo "fondre" (fundir, em francês). Surgiu em princípios do século XIX, quando fabricantes de queijo, na região de Valais (Suíça), decidiram reaproveitar o queijo que sobrava de suas produções. Então derretiam essas sobras em um caldeirão, e iam provando a mistura com pão. Com o tempo, perceberam ser necessário acrescentar álcool - para que a mistura se conservasse por mais tempo. Assim foi que, aos poucos, e de tão bom, passou a ser prato repartido por amigos, em volta da mesa. O caldeirão foi substituído por uma pequena panela de barro esmaltada (coquellon); a fogueira, por fogareiro à álcool (réchaud); os ganchos, usados para retirar o queijo do fogo, por garfos longos (fourchettes); e o álcool por kirsh. Passou-se também a temperar a mistura com alho e pimenta; mantendo-se o pão, para acompanhar o queijo, suíço sempre - gruyère, para dar sabor; e emmenthal, para torná-lo cremoso. Depois foram surgindo variações dessa receita. O "bourguignonne" (de carne) e o de chocolate - invenção dos franceses, bem mais recente. Para acompanhar o prato, segundo sugestões de Dr. Murilo Guimarães (Caderno Sabores 02.06.07), um vinho específico para cada uma das receitas. O de queijo, "vinho branco seco com acidez bem marcada, para se contrapor à gordura do queijo". O de Carne, "vinho tinto encorpado e com taninos marcantes". O de Chocolate, "melhor vinho do Porto". Por fim, na hora de saborear o prato e tomar vinho, bom lembrar o passado das coisas findas; mas, também, o futuro das promessas generosas. E, por tudo, brindar a própria vida. "Tim, tim!".

RECEITA:

FONDUE DE QUEIJO

Ingredientes:

1 dente de alho
200 gr de queijo gruyère
200 gr de queijo emmenthal
200 ml de vinho branco seco
1 colher de chá de fécula de batata (ou maisena)
1 cálice de kirsch (destilado de cereja)

Preparo

- Rale os queijos e reserve.
- Esfregue o dente de alho (partido ao meio) pela panela (de ferro ou cerâmica). Junte o vinho e leve ao fogo. Quando estiver quente, junte os queijos. Abaixe o fogo e mexa, sem parar, com uma colher de pau.
- Quando derreter, junte a fécula de batata (ou a maisena) dissolvida no kirsh. Mexa e desligue o fogo. Misture. Leve a panela au réchaud e sirva com pão cortado em cubinhos. Não pode ferver no réchaud, e nem ficar muito frio. A crosta do fundo é uma delicia.
- O pão deve ser de casca grossa, como o italiano, para não cair do espeto.



Comentários

Lígia disse…
Recordar é viver!
Amei!
Luiz Modesto disse…
Isso no friozinho daqui é extremamente sugestivo, minha querida.
Boa pedida...

Postagens mais visitadas deste blog

Vencendo etapas...

Cartas de amor

Olhos de Carvão - Afonso Borges